O radical livre

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Os verdadeiros vândalos

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Resposta à burguesia sul-riograndense e seus asseclas

 

Daniel Cunha

É cada vez mais frequente que vocês, burgueses e seus asseclas da mídia e do Estado, mais a grande parte da classe média que vocês convencem graças ao enorme poder de seus meios de comunicação, nos chamem de “vândalos”. Isso porque fazemos manifestações que contrariam seus interesses empresariais e políticos e deixam algumas vidraças quebradas, pixações e lixeiras viradas. Como participante dos protestos contra o aumento das tarifas das passagens de ônibus, contra o corte das árvores e contra a Copa, me sinto instado, como indivíduo e sem pretensão de representar ninguém, a responder.

Fico restrito a vocês, burgueses e seus asseclas aqui do meu estado, o Rio Grande Sul. Vocês, que nos chamam de vândalos, deveriam se olhar no espelho. Listo algumas razões a seguir.

  1. Vocês, empresários do setor alimentício, colocam formol e ureia no leite que bebemos.
  2. Vocês, empresários do ramos do transporte, com uma planilha secreta chancelada por vocês, governantes de Porto Alegre, calculam uma tarifa absolutamente abusiva e fraudulenta que é majorada muito além da inflação e que faz com que trabalhadores tenham que pular refeições.
  3. Você, prefeito Fortunatti, ordena o corte as árvores da cidade para os lucros de seus amigos empreiteiros. Para “resolver” o problema com manifestantes que acampavam no Gasômetro, você, Fortunatti, orquestrou uma operação policial na calada da noite com a sua polícia, Tarso Genro, que algemou e prendeu os manifestantes, mesmo que eles não estivessem transgredido nenhuma lei. A sua operação policial, Tarso Genro e José Fortunatti, foi mais sorrateira do que aquelas dos tempos de exceção.
  4. Vocês, empresários do transporte, não ruborizam ao ameaçar a população em apedidos caríssimos de página inteira na Zero Hora dizendo que estão passando por dificuldades (sic), e identificando manifestantes (sic), mesmo que apenas no ano de 2012 o preço irregular da passagem lhes tenha garantido dezenas de milhões de lucro extra (apenas o extra). Vocês são os mesmos empresários que operam o serviço público sem licitação e têm lucro extra há vários anos.
  5. Você, procurador do Ministério Público José Túlio Barbosa, manifestou intenção de emitir parecer contrário à redução das passagens obtida liminarmente no judiciário como resultado da luta popular nas ruas, e que faz real diferença para a renda de subsistência de muitos trabalhadores, por filigranas formais. Você é o mesmo procurador que escreveu artigo debochado publicado no jornal Zero Hora informando que recebe mais de 20 mil reais por mês, e arrematou dizendo que “valho mais do que ganho”. Você só agiu como procurador de justiça ao final devido à pressão popular, senão teria sido procurador de outra coisa.
  6. Vocês, empresários da diversão, na senha por lucros, cortam custos com segurança e colocam obstáculos à evacuação rápida de suas casas, e assim transformam boates em câmaras de gás, como já demonstrei em outro texto.
  7. Vocês, empresários da extração de areia, destruíram as praias do Rio Jacuí. Com a extração embargada, vocês fazem de tudo para convencer-nos de que não há outro lugar para extrair areia, quando se sabe que a sílica compreende nada menos do que 60% da crosta terrestre.
  8. Vocês, empresários da construção, que financiam a campanha de Fortunatti com centenas de milhares de reais e farão as obras no Gasômetro que aniquilam as árvores, choram o aumento do custo da areia. Vocês não dizem que o custo da areia é de apenas 3% do custo do concreto, conforme a tabela FRANARIN de junho/2013. Apenas para obras hidráulicas o custo relativo é alto (cerca de 30%), mas vocês bem sabem que querem lucrar com as obras da Copa (pelo que choram e esperneiam), e bem sabem também que para isso o prioritário são obras viárias, não saneamento. Vocês têm lucros extraordinários, exploram trabalhadores na construção civil, alguns dos quais morrem por falta de segurança, e choram por alguns níqueis a menos quando isso representa a internalização do custo ambiental. Vocês querem areia no mesmo preço que externalizava esse custo.
  9. Vocês, industriais do Vale dos Sinos, lançam efluentes industriais sem tratamento, e vocês, governantes, não tratam o esgoto, causando frequentes grandes mortandades de peixes no Rio dos Sinos.
  10. Você, Valter Nagelstein, coordenou verdadeiro estado de sítio na Cidade Baixa. A única vez que vi alguém fortemente armado em meu bairro e me senti ameaçado foi durante esta sua operação, Nagelstein – era um policial seu, Tarso Genro, que protegia um fiscal seu, Fortunatti. Protegia dos “perigosos” frequentadores de um boteco que vende pastel.
  11. Vocês, José Fortunatti e Vanderlei Cappelari, privilegiam automóveis em em detrimento de pessoas. Como ilustração, gastaram 400 mil reais para ampliar a rua Andrade Neves e reduzir as suas calçadas, mesmo que elas tenham intenso uso de pedestres, sem que se resolva nem sequer o problema dos congestionamentos, já que o trecho próximo à sinaleira não foi alargado. O resultado que vocês apresentaram foi o de gastar 400 mil reais para criar meia dúzia de vagas de estacionamento e estreitar a calçada dos pedestres.
  12. Vocês, José Fortunatti e Vanderlei Cappelari, fazem ciclovias tão ruins que algumas são escorregadias e causam acidentes e outras são no contrafluxo, o que gerou atropelamento na véspera da inauguração (já pronta), mas o que todas têm em comum é que são construídas em guetos e apenas onde não atrapalham o deus-automóvel.
  13. Você, José Fortunatti, escolheu Luiz Fernando Zachia para secretário do meio ambiente, o que por si só já é um acinte. Você, Zachia, está sendo investigado por venda de licenças ambientais, assim como você, ex-secretário estadual Niedersberg.
  14. A sua polícia, Tarso Genro, não faz muito tempo espancou pessoas para defender um boneco inflável da Coca-Cola, o mascote da Copa.
  15. Você, Fortunatti, está promovendo remoções violentas de pessoas para facilitar obras para Copa do Mundo dos seus amigos empreiteiros.
  16. Você, Tarso Genro, recentemente fechou acordo comercial com empresa israelense envolvida na construção do muro na Palestina, não sem antes cinicamente oferecer um punhado de arroz às vítimas.
  17. De novo você, Tarso Genro, está apoiando a volta do carvão à matriz energética do estado, entregando recursos para Eike Batista, com todas as nefastas consequências para o ambiente.
  18. E mais uma vez você, Tarso Genro, se recusa a pagar o piso nacional dos professores, mas não se recusa a pagar juros de dívida.
  19. Vocês, proprietários e editores da RBS, fizeram uma cobertura tão ruim, parcial e falsa do movimento contra o aumento das passagens que seu jornal Zero Hora foi obrigado a escrever um editorial fazendo autocrítica (e para vocês fazerem autocrítica é porque a coisa foi realmente putrefata, pois o padrão de vocês é normalmente baixíssimo). O seu grupo jornalístico defende firmemente as transformações urbanas do governo Fortunatti, já que vocês têm interesses imobiliários envolvidos (construtora Maiojama).
  20. Vocês, empresários do agronegócio, plantaram soja transgênica no estado quando isso era clandestino. Vocês, governantes, deixaram isso passar sem nenhuma consequência.
  21. Vocês de novo, empresários da indústria alimentícia, utilizam alimentos transgênicos sem rotulagem, retirando o direito das pessoas saberem o que estão comendo.
  22. Vocês, empresários da celulose, destroem o pampa para plantar eucalipto para fazer papel para embalar bugigangas inúteis. Vocês, governantes, deram licença para isso.
  23. Novamente você, Fortunatti, não repassa a diminuição do PIS/Cofins para o preço das tarifas de ônibus, preferindo subsidiar lucro de empresários a subsidiar o direito de ir e vir da população.
  24. Você, vice-prefeito Sebastião Melo, ao ser perguntado se o corte de árvores no Gasômetro tem relação sorrateira com a fórmula Indy, nem sequer teve a decência de responder.
  25. Você, Fortunatti, entregou a praça pública central da cidade para ser administrada por uma corporação privada e permite que ela seja usada como estacionamento.
  26. Você, major Córdova da Brigada Militar, mente sobre o que aconteceu no protesto contra o tatu-bola de plástico da Coca-Cola. Você, Tarso Genro, comandante da brigada, mantém a mesma pessoa comandando operações na rua, que acabam, também, com cenas de batalha campal. Você, comandante Córdova, ordenou um ataque sorrateiro com bombas pelas costas da manifestação na avenida João Pessoa, o que eu sei porque estava lá, e depois vai aos meios de comunicação dizer que foram os manifestantes que foram agredir a polícia.
  27. Vocês, governantes do estado e do município, sistematicamente retiram direitos dos trabalhadores com uma mão e entregam recursos para empresas privadas e pagam juros de dívida com a outra.
  28. Você, Cesar Busatto, tem confissão gravada de que todos os partidos políticos surrupiam dinheiro de estatais para financiar suas campanhas. Você, José Fortunatti, o mantém como membro de seu governo.
  29. Enquanto pessoas sofrem e morrem em hospitais por falta de recursos, vocês constroem estádios de futebol. Os preços cobrados impedem grande parte da população de assistir uma única partida.

A lista poderia se estender, vocês sabem bem disso, mas paremos por aqui. Nem é necessário partir para a agenda nacional e internacional.

Pois bem, vocês, esse grupo social que envenena os nossos alimentos, corta as nossas árvores, retira nossos direitos trabalhistas, remove pessoas violentamente, expropria o direito de ir e vir de muitos, degrada a cidade ao estimular o uso do automóvel particular e sucatear o transporte público, utiliza técnicas policiais violentas e sorrateiras, troca favores privados utilizando-se das estruturas públicas, destrói nossas praias, polui nossos rios e nosso ar, nos expõe ao risco de morte em suas boates e colocam pessoas fortemente armadas em ruas onde isso nunca se viu, faz acordos comerciais com violadores de direitos humanos, remunera vilmente nossos professores, coloca trabalhadores sob risco em indústrias e na construção civil, sucateia hospitais, deixa de defender o interesse público e depois ainda ameaça atrapalhar as conquistas populares e ainda distorce a forma como essas informações chegam ao público, justamente esse segmento da sociedade chama as pessoas que (ouso dizer e sem querer representar ninguém) se organizam para lutar contra tudo isso de… “vândalos”.

Aqui já deve estar claro que tenho justificativas ético-políticas suficientes para acusar: vândalos são vocês. Não me entendam mal, isto não é uma crítica personalizada vulgar como a que vocês fazem: como bom leitor de Marx, eu sei que o seu grupo social, a burguesia e seus apêndices, é apenas um agente, a “personificação do capital” – mas esse papel, hoje, cada vez mais faz de vocês vândalos, picaretas, cínicos, violentos, sujos e sorrateiros – vocês são os ratos do dinheiro. É por isso que os combateremos sem trégua. Porque queremos ter um futuro.

Nenhuma vidraça quebrada – de bancos que lucram milhões por dia cobrando juros de trabalhadores e poderiam comprar todo o vidro do mundo se quisessem, e que são tratados a pão-de-ló por vocês governantes –, nenhuma pixação em prefeitura – que tem algumas de suas proezas antipopulares relatadas acima – se comparam ao vandalismo ampliado que vocês cometem todos os dias.

Aos manifestantes de ontem e de outros dias, de Porto Alegre, de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Turquia, de Nova Iorque e de toda a parte, tenham quebrado algo ou não, tenham sido presos e agredidos pela polícia (com ou sem pretexto) ou não, minha saudação fraternal. O futuro será feito por nós, ou não será. Vocês, burgueses e seus asseclas, são os executores da aniquilação do mundo humano e natural. É por isso que estamos nas ruas: porque alguém precisa deter vocês, os verdadeiros vândalos.

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Written by sinaldemenos

junho 15, 2013 at 9:37 am

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Kiko, Chaves e as lutas de classe em Porto Alegre

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Daniel Cunha

Porto Alegre foi recentemente surpreendida pela escolha do ator que interpreta o personagem Kiko, da série mexicana Chaves, para ser “embaixador” da cidade visando a Copa do Mundo de 2014. Surpreendida porque o processo e os critérios para a escolha são absolutamente opacos aos cidadãos “representados” – o que, dado o corte político da administração municipal, não é surpresa. Mas quem é Kiko, o personagem que foi associado à cidade? O que ele representa, além do fato circunstancial de estar sempre carregando uma bola? O episódio “O aniversário de Kiko” (ver vídeo na íntegra abaixo) nos ajuda a esclarecer estas questões.

Logo no início, Kiko, o menino economicamente mais privilegiado da vila, é surpreendido por Dona Florinda, sua mãe, prestes a convidar Chiquinha para a sua festa de aniversário. Chiquinha é uma menina mais pobre, e a mãe prontamente diz que “não convém fazer amizade com essa gentalha”, que ele não deveria convidar a “outra classe”. Kiko então diz que “quanto mais crianças melhor”, já que “haverá tanta comida”. A mãe de Kiko então mostra orgulho maternal pelo filho que, pensa ela, estaria disposto a compartilhar sua riqueza com os mais pobres. Ao que Kiko revela o seu real interesse: “Quanto mais crianças vierem, mais presentes eu ganho”. Enquanto sua mãe tenta convencê-lo a ter uma visão mais “humanista”, Kico revela que também convidará Chaves, o menino mais pobre da vila, “que também não vai me trazer nada”. A mãe, enganada quanto às intenções do filho, mostra-se orgulhosa da sua generosidade, e o interrompe antes que esse diga a razão do convite, dispondo-se a convidar pessoalmente Chiquinha. Após as travessuras e mal-entendidos típicos da série, Kiko finalmente revela a razão para convidar Chaves, diretamente para ele: se não fosse, não haveria ninguém para invejar os seus presentes.

Durante a festa, Kiko impõe a brincadeira que quer, contra a vontade dos demais, apenas por ser “o dono da casa”. À mesa, enquanto Kiko discute com Nhonho, o filho do dono da vila, sobre quem tem mais poder econômico, Chaves, o menino pobre que tem dificuldades para comer, trata de pegar os sanduíches. Chaves por vezes comete gafes sociais, chamando a mãe de Kiko de “velha rabugenta”; Dona Florinda, então, diz que foi um sacrifício convidá-lo para a festa, já que ele era grosso e mal-vestido, e desconhecia os princípios da educação e da humildade, mas que aceitavam a sua presença para que não dissessem que eram orgulhosos. Na hora de apagar as velas do bolo, o desejo de Kiko é que no seu próximo aniversário a “gentalha” não venha, para que ele possa comer tudo sozinho. Nesse ponto, sua mãe diz que devemos aprender a compartilhar as coisas com a “gentalha”, reconhecendo que isto não é fácil, mas que vale a pena tentar.

O que emerge aqui é que Kiko é o privilegiado social cheio de preconceitos de classe, sádico, manipulador e desumano.  Sempre que é contrariado imediatamente recorre ao poder repressor (sua mãe). Ao longo de todo o enredo, Kiko relaciona-se com os demais desta forma coisificada e utilitária, não hesitando na hora de utilizar o seu poder de classe para impor as suas vontades e humilhar os demais. Para ele, o que vale é o ganho utilitário e o prazer sádico. As “boas maneiras” das quais fala Dona Florinda revelam-se como as boas maneiras dos negócios, a arte de manipular os outros e utilizar instrumentos de poder para benefício próprio. Já Chaves, o menino mais pobre, a inadequação personificada, sempre acusado de “gentalha” por Dona Florinda, o tempo todo tem apenas uma preocupação: matar a sua fome, comendo os sanduíches da festa. De todos os personagens, é o que tem o comportamento menos destrutivo, cometendo apenas “gafes” inocentes que não são toleradas por Dona Florinda, o que contrasta com a sua leniência para com os jogos sádicos de seu filho. Dona Florinda, no entanto, revela a sua má consciência na forma do sacrifício do compartilhamento caridoso – que Oscar Wilde já denunciou como a posição conservadora daqueles que querem colaborar para a manutenção do sistema de dominação. Na cena final do episódio, Chaves compartilha os sanduíches que coletou na festa com o (lúmpen)proletário Seu Madruga, que lhe oferece suco – aqui sim temos o compartilhamento propriamente comunista, sem relações de dominação ou interesse utilitário, o compartilhamento entre iguais.

Desta análise, só se pode concluir que a escolha de associar este personagem a Porto Alegre foi um ato falho, um caso de identificação inconsciente daqueles para quem as “boas maneiras” são aquelas que são funcionais à arte de transformar dinheiro em mais dinheiro – e nada mais –  e já são incapazes de conceituar algo diferente, passando a fazer apologia daquilo que exprime esse espírito. Pois o que se vê em Porto Alegre é justamente que, em nome da Copa e seus lucros, todos os “Chaves” da cidade, todos os inadequados e supérfluos, são humilhados, removidos e aniquilados – isto vai desde a remoção de vilas inteiras até o corte de árvores que são entraves ao “progresso” do alargamento de avenidas. É claro que a “gentalha” não terá acesso à Copa, que lhes será completamente inacessível. A Copa será apenas para os Kikos da cidade, que poderão pagar os altos preços dos ingressos, e mais alguns ingressos caridosos que certamente serão distribuídos para afastar a má consciência dos dominantes. O “complexo de Kiko” transparece até mesmo no vocabulário dos seus atuais administradores, que parecem emular o personagem quando se referem a seus opositores políticos: Fortunatti chama os manifestantes contra o aumento das tarifas de ônibus de “baderneiros”, e os que se opuseram ao tatu da Coca-Cola na praça central da cidade de “vândalos”; Cesar Busatto e Valter Nagelstein chamam os manifestantes de “turba”, e o último chama os participantes da Massa Crítica de “pessoas menos qualificadas”. Mas para além dos preconceitos de classe, os grandes favorecidos com a Copa serão os “donos da vila”, os grandes empreiteiros amigos da administração municipal, em simbiose espúria e destrutiva – a menos que a “gentalha” consiga impedir a realização dos seus sonhos sádicos.

O personagem Kiko, portanto, é um excelente representante não de Porto Alegre, mas da atual administração municipal que o escolheu, que preza pelo corte classista elitista e age e discursa tal qual Kiko em sua festa de aniversário. O que faltou para o episódio do Chaves (e que seria mesmo inadmissível em uma transmissão televisiva) é aquilo que começa a engatinhar em Porto Alegre: a (auto)organização dos muitos Chaves inadequados para combater os poucos Kikos com poder econômico – a luta de classes propriamente articulada pelo direito à cidade.

Written by sinaldemenos

abril 20, 2013 at 8:38 pm

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A câmara de gás de Santa Maria

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Daniel Cunha

Estive recentemente no memorial do campo de concentração de Dachau, nas cercanias de Munique. Lá tive a nauseante sensação de adentrar a câmara de gás que era usada para matar judeus. Foi dessa câmara de gás que lembrei ao acompanhar a tragédia da boate Kiss em Santa Maria. Vejamos a descrição do local veiculada na imprensa: o local era fisicamente configurado para dificultar a saída (com porta única, corredor estreito, divisórias metálicas e seguranças), e o teto do estabelecimento era constituído de material que liberava gás tóxico ao sofrer combustão. É certo que a boate não foi intencionalmente projetada para matar gente como a câmara de gás de Dachau – não havia uma válvula ou interruptor específico para iniciar a combustão da espuma do teto, mas isto torna tudo não menos, mas mais horripilante, quando percebemos que a lógica que configurou o espaço do local da tragédia não é nada menos do que aquela que rege todas as atividades corriqueiramente empreendidas de forma capitalista.

É certo que cada morte representa uma perda individual humanamente insubstituível. Porém, é um tremendo erro considerar este episódio apenas em sua particularidade – há uma lógica estrutural subjacente. Todos os determinantes do episódio possuem uma substância comum, o Capital: a configuração do espaço interno que dificultou a saída das vítimas visava preservar o pagamento monetário das consumações; a superlotação do local aumentou a receita do empreendimento; o material do teto era mais barato do que o material não combustível, que existe; o sinalizador utilizado pela banda era impróprio para uso interno, mas muito mais barato do que o material que produz “fogo frio”; a manutenção frequente dos extintores representa custo. Todos os fatores da tragédia foram determinados pela maximização das margens de lucro, da boate e da banda. Desse conjunto de cegas ações individuais “economicamente racionais” emergiu uma “eficiente” câmara de gás.

Não se tratou, portanto, de uma contingência isolada, pois a sociedade capitalista como um todo é configurada segundo esta “racionalidade econômica”. A lógica da tragédia de Santa Maria é a mesma que determina a morte de operários na construção civil, a morte de ciclistas nas ruas e de motoristas nas estradas, as mutilações de trabalhadores em processos de produção, intoxicações alimentares e leite com soda cáustica, queda de prédios novos, incêndios em favelas localizadas em áreas valorizadas, doenças degenerativas causadas por aditivos alimentares e farmacêuticos, infinidade de doenças ocupacionais, etc., e, não menos importante, a morte lenta representada pela diária mutilação psíquica dos proletarizados que são obrigados a trabalhar em abstrato em atividades sem sentido apenas pelo direito à sobrevivência – isso sem esquecer o aquecimento global e o perecimento de outras forma de vida. Por ter sido concentrada, a tragédia da boate Kiss foi mais chocante do que as tragédias diárias difusas, mas o que aconteceu em Santa Maria foi apenas mais um beijo da morte do Capital, da morte que permeia a totalidade da sociedade capitalista. Se o campo de concentração de Dachau foi o resultado de um excesso irracional do Capital, a câmara de gás de Santa Maria foi o resultado do uso pleno da racionalidade capitalista – racionalidade cuja aplicação teve como resultado uma arquitetura mortífera. Esta racionalidade que tudo objetiva em nome o lucro – e que, ironicamente, muitas vezes recebe o nome de “qualidade total” – permeia a sociedade como um todo. As salvaguardas regulatórias que impunham limites à acumulação desenfreada cada vez mais são escamoteadas pelo triunfo neoliberal. Se é verdade que o Capital desenvolveu as forças produtivas, é também verdade que elas se tornam cada vez mais destrutivas em seu processo de crise.

Para que tais coisas não se repitam, de forma concentrada ou difusa, o que é necessário é uma redução generalizada das margens de lucro, não apenas das boates (materializada em fiscalização eficiente e exigência de investimentos em sistemas de segurança e responsabilização de prefeitos que não o fazem), mas de todos os tipos empreendimentos. Se o Capital não suporta isso sem entrar em colapso, trata-se de mais um evidência de que é preciso superá-lo. A força material para isso está aí: como lembra John Holloway em seu último livro, nas catástrofes ocorrem fissuras no tecido da dominação capitalista, irrupções de relações humanizadas e anticapitalistas. Foi o caso do grupo de jovens que se organizou para quebrar a parede da boate usando marretas para tentar salvar vítimas, como mostram fotos e vídeos veiculados na imprensa. Um deles disse que todos se ajudavam, sobreviventes e pessoas que passavam, desconhecidos que cooperaram “como se fossem uma família” – e foram perfeitamente capazes de se organizar de forma eficiente para fins humanos sem nenhum interesse monetário ou lucrativo, evitando que o número de mortos fosse ainda maior. A tragédia capitalista de Santa Maria fez irromper o seu oposto. É preciso usar marretas contra o Capital.

Written by sinaldemenos

janeiro 28, 2013 at 10:17 pm

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Em defesa de Boris Casoy

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Daniel Cunha

Não, não compartilho os posicionamentos políticos do jornalista Boris Casoy, e não o conheço pessoalmente. No entanto, creio que ele está sendo vítima de uma injustiça de parte de seus críticos, que são majoritariamente de esquerda, no que se refere ao episódio dos garis. Lembremos o ocorrido. Ao final de uma reportagem tipicamente idiota a respeito do novo ano que se aproximava, um gari dizia:

– Feliz ano-novo, muita paz, muita saúde, muito dinheiro, muito trabalho.

E conclui, em coro com um colega:

– Feliz 2010!

Casoy, sem notar que seu áudio continuava aberto, fez as suas célebres observações, com a respiração entrecortada pela risada:

– Que merda, dois lixeiros desejando felicidades… do alto das suas vassouras… dois lixeiros… o mais baixo da escala do trabalho…

Desde então, Casoy é sistemática e regularmente atacado, criticado e achincalhado devido a estas palavras. Teve de retratar-se em seu telejornal no dia seguinte, e, sabe-se agora, foi condenado a pagar 20 mil reais de indenização ao gari. O argumento usado pela esquerda é tão simplório quanto equivocado: Casoy teria ofendido a dignidade dos garis e revelado todo o seu “preconceito de classe”. Porém, por paradoxal que seja, pode-se dizer que neste caso Casoy foi mais esquerdista e mesmo mais marxista do que os seus críticos de esquerda. Pois o que ele evidenciou foi a contradição de se ter um lixeiro, uma pessoa que está em posição indesejável na “escala do trabalho” desejando felicidades, ou seja, enraizou o seu conceito nas relações sociais de produção, e não em alguma forma de desprezo pessoal. Se o trabalho assalariado, alienado, é sempre mutilador e desumanizador, o de gari é um dos que materializam o seu estado mais puro, por levar a insalubridade física e psíquica do trabalho abstrato ao seu limite, ao lidar permanentemente com a escória, objetos podres, estragados, socialmente desprezados, e por isso jogados fora.

É profundamente injusto, portanto, acusar Casoy de “preconceito de classe”. Isto não passa de discurso tão politicamente correto quanto vazio. Casoy expressou um conceito de classe, ou seja, evidenciou a profunda proletarização e alienação dos garis, e a contradição de que estas pessoas nesta condição miserável desejem felicidades aos outros. Indo além de Casoy, não se trata de negar a dignidade dos garis, mas de perceber que a dignidade dos garis começa no ponto em que eles deixam de ser meros garis, que vão contra e mais além dessa identidade imposta pelo capital. Defender a dignidade do trabalho proletarizado é posição profundamente conservadora, e que serve perfeitamente aos interesses das classes dominantes e do sistema capitalista, pois ajuda a garantir a pacificação ideológica (falsa) de uma realidade social violenta.

A resposta propriamente de esquerda ou comunista, portanto, deveria ser:

“Sim, Casoy, nós, garis e demais proletarizados do mundo, estamos em condição social indigna e alienante – é exatamente por isso que estamos preparando uma revolução! Estamos gestando um mundo onde não haverá lixeiros, onde utilizaremos a tecnologia avançada (devidamente expropriada) para automatizar ao máximo as operações envolvendo o lixo. O pouco trabalho manual que ainda for necessário será socializado entre todos, de forma que com uma pequena contribuição pessoal de algumas horas anuais todas as operações necessárias estarão garantidas. Faremos o mesmo em todas as outras esferas da produção social. Nesse mundo, como diria o velho Marx, os indivíduos poderão dedicar-se livremente ao que lhes for prazeroso,  podendo, por exemplo, pescar pela manhã, criticar à tarde e fazer música à noite, sem por isso se reduzirem a pescadores, críticos ou músicos. Você não perde por esperar!”

Written by sinaldemenos

novembro 25, 2012 at 2:31 pm

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O tatu e os ratos

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O tatu e os ratos

Copa do Mundo, dinheiro e violência de Estado

Daniel Cunha

Como já mostrei em texto anterior, o episódio do tatu da Coca-Cola em Porto Alegre serviu para trazer à luz os posicionamentos autoritários do comando da segurança pública do Rio Grande do Sul, a começar pelo secretário de estado Airton Michels. Isto foi em certa medida suavizado pela declaração do governador Tarso Genro, que, ainda que de forma ridiculamente tardia e insuficiente, de certa forma desautorizou o seu secretário. No entanto, novas manifestações, desta vez do prefeito Fortunatti – aliado de Tarso, e cuja guarda municipal, conforme testemunhos, também participou da pancadaria, apesar de nos vídeos estar mais destacada a Brigada Militar – novamente acionam as sirenes do estado de sítio.

No chamado “Seminário FIFA sobre segurança”, o prefeito desqualifica os manifestantes como um grupo de “vândalos” – como se o conflito não tivesse sido iniciado pelas forças policiais, conforme mostram vários vídeos, como se eles não tivessem críticas políticas ao seu governo. Diz que o grupo “ficará isolado da população” – como se não fossem parte da população e não tivessem cidadania. E em seguida, traz à luz o motivo de seu nervosismo: novos protestos relacionados à Copa “podem afastar turistas e oportunidades de negócios de geração de emprego e renda para a cidade”. Ou seja, em nome do absolutismo do dinheiro e do trabalho alienado, Fortunatti se acha no direito, não de ter posição política contrária a certas manifestações (direito seu), mas de querer silenciá-las, impedir que elas aconteçam com uso da força policial – afinal, são apenas “vândalos”.

Por sua vez, o comandante da Brigada Militar Sérgio Abreu volta a fazer a defesa da atuação da polícia militar, qualificando-a como “correta”, e destila mentiras: “Não se tinha a dimensão de que as pessoas chegariam àquele nível de agressividade de querer depredar. Começaram a retirar os gradis e a BM não conseguiu conter. Era um grupo grande. Eles não vieram caminhando para que a polícia pudesse orientar sem repressão. Não obedeceram e arremessaram pedras, isso levou a reação da BM. Isso acabou gerando outras agressões”.

O primeiro vídeo abaixo deste texto, gravado pela própria polícia militar, mostra que, ao contrário do que diz o comandante, os manifestantes se aproximaram caminhando, e não promovem um arremesso de pedras, mas uma dança de roda. O segundo vídeo mostra de forma didática a versão policial e o que as imagens dos fatos mostram.

Não satisfeito em distorcer o ocorrido, o comandante afirma: “Quem estava ali estava sujeito”. Uma confissão descarada de que a polícia espancou pessoas indiscriminadamente. E completa: “não serão permitidas durante o mundial este tipo de reunião que pode resultar em episódios como os da última quinta-feira”. O comandante deveria saber disso, mas não custa lembrar: o direito à reunião pacífica é garantido constitucionalmente. E, novamente, a violência resultou da ação inadequada da polícia que ele comanda. Mesmo assim, Abreu não tem uma palavra sequer de condolências ou respeito às vítimas da violência da sua polícia, que derramou sangue e levou vários ao hospital. Ao contrário, assim como o secretário de segurança, que os tratou como objetos ao equipará-los ao tatu de plástico enquanto “patrimônio”, Abreu os objetifica ao dizer que “o episódio serviu de laboratório para nós”. Ou seja, reduziu os manifestante a cobaias, meros objetos de suas experiências.

Mais um vez, portanto, fica claro o posicionamento dos comandantes da segurança do Estado, e agora do prefeito, em suas próprias declarações. Não se admitirá manifestações. Opositores políticos são vândalos. E quem estiver perto, estará sujeito. Para não afastar oportunidades de negócios.

Como dizia um cartaz na manifestação de repúdio ao incidente provocado pelos policiais: “Violenta é a ditadura do mercado”. Os ratos do dinheiro querem o monopólio da cidade, com a proteção de seus cães de guarda.

Fonte das declarações:

http://sul21.com.br/jornal/2012/10/episodios-com-mascotes-dominam-pauta-em-ato-sobre-seguranca-na-copa/

Vídeos:

Written by sinaldemenos

outubro 12, 2012 at 10:06 pm

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A truculência como política de Estado

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Daniel Cunha

O episódio de violência protagonizado pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul em protesto contra o mascote da Copa patrocinado pela Coca-Cola (ver links de vídeos abaixo), se teve algum aspecto positivo, foi o de trazer à luz a política de segurança utilizada por aquela corporação, não da análise de terceiros, mas nas declarações do seu próprio comando. Logo após o festival de agressões da polícia de choque, que incluiu cenas como um policial chutando a cabeça de uma pessoa caída no chão e pessoas sendo presas pelo simples fato de estar filmando as ações, o coronel Freitas afirma que poderia elencar muitos motivos para as detenções de manifestantes que ocorreram: “Desordem, dano, agressão, lesão corporal. Teria uma lista”. O rol citado é perfeitamente adequado para a descrição da atuação da polícia.

No dia seguinte, o major André Luiz Córdova afirma: “Toda ação gera uma reação. Fizemos uma reação técnica e proporcional à violência que acontecia com os policiais e com outras pessoas”. As filmagens que a polícia não conseguiu roubar e destruir mostram o contrário disso. Quando a polícia começou a repressão o animal de plástico não havia sofrido nenhum dano, e nenhum policial havia sido agredido. Os poucos que haviam “invadido” o espaço público estavam tocando pandeiro. Seria o uso de cacetetes e balas de borracha proporcional ao uso de um pandeiro? Segue o major: “Não usamos armas de fogo”. Teria ele cogitado esta hipótese? Estaria achando que foi generoso ao não utilizar armas de fogo contra civis desarmados em uma manifestação em frente a um boneco inflável? Córdova então faz uma ameaça:

“Hoje foram oito pessoas [detidas]. Numa próxima vamos identificar todos os envolvidos. Estamos montando uma rede de monitoramento da atuação destas pessoas. Elas ficam se combinando pela internet e não avisam o que vão fazer. Não tem uma liderança entre eles que responda por nada minimamente. Depois, resolvem fazer qualquer coisa e saem fazendo”.

Em poucas frases, o major revela toda a sua intimidade com o pensamento ditatorial, prometendo estabelecer uma rede de espionagem para monitorar um movimento social legítimo.

Por sua vez, o secretário de segurança do estado, Aírton Michels, afirmou no dia seguinte à desastrosa atuação: “Ainda não vi as imagens, mas pelo que a Brigada Militar disse, a intervenção foi necessária”. Ou seja, o secretário mostra uma fé literalmente cega na sua polícia. Segue o secretário: “A BM estava para proteger todo o entorno do Centro. Mas, quando digo patrimônio, inclui o público e privado e também as pessoas”. De forma completamente absurda, o secretário Michels iguala o corpo das pessoas ao boneco de plástico, que seriam ambos, segundo ele, “patrimônio” com igual direito à integridade – fica a dúvida se ele humaniza o tatu da Coca-Cola ou coisifica os manifestantes. Para não deixar margem a dúvidas quanto à sua fé cega em seus policiais, ele afirma que “não trabalho com a hipótese de constatação futura de abuso de força policial”. Sem ver os vídeos, como ele mesmo confessou, sem analisar as denúncias e reclamações, o secretário de segurança simplesmente descarta uma investigação, desqualificando a cidadania dos reclamantes.

Ao final da tarde do dia seguinte, encorajado pelo respaldo cego de seu secretário de estado, o coronel Alfeu Freitas é ainda mais claro: “a Brigada Militar vai defender a paz pública [sic], independentemente dos meios”. Independentemente dos meios! Ora, no Estado de direito a polícia deve “defender a paz pública” utilizando meios legais. Mais uma vez se ouvem fortes ecos da ditadura nas próprias palavras do comando do policiamento, e não apenas em um ato impensado de um soldado.

E, nesse tempo todo, onde estava o comandante-em-chefe da Brigada Militar, o governador Tarso Genro? Não se sabe. Por três dias ele permaneceu em silêncio enquanto seus subordinados mentiam e faziam ameaças antidemocráticas explícitas. Quando se manifestou, foi para dizer que “temos por dever individualizar o comportamento de cada agente público policial para as respectivas decorrências legais”. O que deve ter ficado claro após todas as declarações aqui apresentadas, é que a pancadaria policial não ocorreu por falhas individuais ocasionais, mas estava em consonância com a própria visão de segurança pública dos comandantes da força policial, incluindo o secretário de estado. Em qualquer país com democracia consolidada, o secretário de segurança e o comando da polícia seriam demitidos por representarem uma ameaça à sociedade democrática.

No entanto, após a ridiculamente tardia manifestação do governador, noticia-se que os policiais passarão por uma “reciclagem”, conforme o coronel Freitas: “Determinei um calendário para passar instruções aos batalhões especiais sobre Controle de Distúrbios Civis”. “Distúrbios Civis”, é assim que ele chama as manifestações sociais. Sobre os policiais que agrediram e prenderam pessoas que simplesmente filmavam a ação da polícia, ele diz que “essa é uma questão pontual que um ou outro não exerce com tolerância e paciência”. Aqui o coronel comete um ato falho que mais uma vez revela o seu pensamento afeto ao autoritarismo. “Tolerância” e “paciência” se exerce com o que é um incômodo. A filmagem em praça pública, no entanto, não deveria ser incômodo para uma polícia competente, honesta e republicana. Só tem medo de filmagem, só se sente incomodada por elas, uma polícia que age de forma corrompida. Esse ato falho revela o profundo desconforto da polícia militar para com o Estado de direito.

O que transparece nas declarações do comando da polícia militar – do secretário, do coronel, do major – é a inadequação latente da própria existência de uma polícia militar em um regime democrático. O militar é treinado para combater o inimigo – inimigo que, no caso, é o cidadão. Não deixa de ser ingênuo exigir civilidade de uma polícia militarizada, ou individualizar a análise do ocorrido, como quer Tarso. O mais adequado é pedir a extinção da polícia militar, conforme já indicado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU ao Brasil, pois uma polícia militarizada é claramente um resquício da ditadura. Enquanto isso não é possível, pois depende de reforma constitucional, ao menos o comando da polícia e a secretaria de segurança deveriam estar nas mãos de pessoas minimamente comprometidas com as normas de um Estado de direito, e não na de pessoas que, com suas próprias palavras, revelam profunda simpatia por métodos ditatoriais. A individualização da responsabilidade pelos degradantes fatos ocorridos passa ao largo da questão central: a natureza de uma polícia militarizada que, no momento, se dedica a defender violentamente a apropriação dos espaços públicos por corporações em busca de lucro.

Fontes

Vídeos:

Declarações:

http://sul21.com.br/jornal/2012/10/manifestacao-termina-em-batalha-campal-no-centro-de-porto-alegre/

http://sul21.com.br/jornal/2012/10/autoridades-divergem-sobre-repressao-da-bm-a-manifestacao-em-porto-alegre/

http://sul21.com.br/jornal/2012/10/manifestantes-voltam-a-prefeitura-para-protestar-contra-repressao-em-porto-alegre/

http://sul21.com.br/jornal/2012/10/tarso-emite-nota-sobre-a-a-atuacao-da-brigada-nos-conflitos-de-quinta-feira/

http://sul21.com.br/jornal/2012/10/pelotoes-especiais-da-bm-passarao-por-reciclagem/

 

Written by sinaldemenos

outubro 10, 2012 at 1:59 am

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A guetização dos ciclistas de Porto Alegre

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Daniel Cunha

As obras de engenharia e de arquitetura, mais do que estruturas e construções, sempre deixam as marcas de sua intenção em seu resultado final. O caso da estrutura cicloviária de Porto Alegre oferece um claro
exemplo disso. Tomemos a ciclovia da avenida Ipiranga. Ela foi construída fora do leito da pista, sobre o talude que margeia o Arroio Dilúvio. Por isso, há obstáculos na pista, como postes de energia elétrica, que causam estrangulamentos na faixa de circulação. Ela está localizada embaixo de fios elétricos de alta tensão. Há cercas de ambos os lados da ciclovia, que a isolam e dificultam o acesso. Por fim, conforme prevê o projeto, será necessário trocar de lado na avenida cinco vezes ao longo do trajeto. Em termos de trânsito de bicicletas, seria difícil imaginar algo pior do que isso. De fato, o que se aterializa neste projeto é a clara intenção, não de facilitar o tráfego de ciclistas, mas de afastá-los do leito da pista para que os automóveis possam trafegar sem precisar compartilhá-la. A bicicleta é claramente tratada como um problema, um incômodo a ser “gerenciado” e apartado. Em suma, um verdadeiro gueto para confinar os párias que ousam fugir à norma do transporte individual motorizado-poluidor.

Analisemos agora as novas ciclovias cuja concepção inicial de projeto foi apresentada recentemente em reunião com a comunidade na Cidade Baixa. Na Loureiro da Silva, propõe-se construí-la junto ao canteiro central, justamente o local de pior acesso, que isola os ciclistas. Na José do Patrocínio, propõe-se uma ciclovia bidirecional, o que aumenta muito o risco de acidentes, além de provavelmente restringir o espaço potencial para bicicleta. Na Érico Veríssimo, a proposta é fazer a ciclovia sobre o canteiro central, embretada em meio às árvores. Mais uma vez, a bicicleta é tratada como um problema a ser gerenciado, os ciclistas são espremidos e jogados sobre terrenos improváveis, para que os veículos motorizados possam se deslocar sem ser importunados em seu sagrado deslocamento. As soluções óbvias – ciclovia na margem da pista na Loureiro da Silva, duas ciclovas unidirecionais na José do Patrocínio e na Lima e Silva e ciclofaixa no leito da pista na Érico Veríssimo – não são cogitadas.

Conforme o arquiteto que apresentou as propostas da prefeitura, é preciso haver “tolerância” para com o trânsito de bicicletas. Trata-se de discurso que apenas confirma o processo de guetização dos ciclistas. Ou alguém imagina que o movimento feminista reivindica que as mulheres sejam “toleradas” pelos homens? Ou que os movimentos antirracistas demandem que os negros sejam “tolerados” pelos brancos? “Tolerância” pressupõe a reprovação. De fato, as ciclovias construídas e projetadas pela prefeitura são monumentos à “tolerância”: toleramos os ciclistas, desde que estejam fora do nosso caminho, apartados do espaço onde circulamos, espremidos em guetos. Elas são o registro físico, na forma de obras de engenharia, da opção política incondicional da prefeitura de Porto Alegre: a prioridade absoluta e intocável da circulação de automóveis – a mais insustentável forma de transporte urbano – sobre as demais formas de locomoção. Enquanto esta política não for modificada, não haverá uma única ciclovia decente nesta cidade.

O que os ciclistas de Porto Alegre querem não é “tolerância”. Não queremos ser “tolerados” pelo prefeito, pelo presidente da EPTC ou pelos motoristas. Não queremos pedalar em guetos que eles chamam de “ciclovias”. O que queremos é respeito e dignidade.

Written by sinaldemenos

outubro 10, 2012 at 1:29 am

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