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Kiko, Chaves e as lutas de classe em Porto Alegre

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Daniel Cunha

Porto Alegre foi recentemente surpreendida pela escolha do ator que interpreta o personagem Kiko, da série mexicana Chaves, para ser “embaixador” da cidade visando a Copa do Mundo de 2014. Surpreendida porque o processo e os critérios para a escolha são absolutamente opacos aos cidadãos “representados” – o que, dado o corte político da administração municipal, não é surpresa. Mas quem é Kiko, o personagem que foi associado à cidade? O que ele representa, além do fato circunstancial de estar sempre carregando uma bola? O episódio “O aniversário de Kiko” (ver vídeo na íntegra abaixo) nos ajuda a esclarecer estas questões.

Logo no início, Kiko, o menino economicamente mais privilegiado da vila, é surpreendido por Dona Florinda, sua mãe, prestes a convidar Chiquinha para a sua festa de aniversário. Chiquinha é uma menina mais pobre, e a mãe prontamente diz que “não convém fazer amizade com essa gentalha”, que ele não deveria convidar a “outra classe”. Kiko então diz que “quanto mais crianças melhor”, já que “haverá tanta comida”. A mãe de Kiko então mostra orgulho maternal pelo filho que, pensa ela, estaria disposto a compartilhar sua riqueza com os mais pobres. Ao que Kiko revela o seu real interesse: “Quanto mais crianças vierem, mais presentes eu ganho”. Enquanto sua mãe tenta convencê-lo a ter uma visão mais “humanista”, Kico revela que também convidará Chaves, o menino mais pobre da vila, “que também não vai me trazer nada”. A mãe, enganada quanto às intenções do filho, mostra-se orgulhosa da sua generosidade, e o interrompe antes que esse diga a razão do convite, dispondo-se a convidar pessoalmente Chiquinha. Após as travessuras e mal-entendidos típicos da série, Kiko finalmente revela a razão para convidar Chaves, diretamente para ele: se não fosse, não haveria ninguém para invejar os seus presentes.

Durante a festa, Kiko impõe a brincadeira que quer, contra a vontade dos demais, apenas por ser “o dono da casa”. À mesa, enquanto Kiko discute com Nhonho, o filho do dono da vila, sobre quem tem mais poder econômico, Chaves, o menino pobre que tem dificuldades para comer, trata de pegar os sanduíches. Chaves por vezes comete gafes sociais, chamando a mãe de Kiko de “velha rabugenta”; Dona Florinda, então, diz que foi um sacrifício convidá-lo para a festa, já que ele era grosso e mal-vestido, e desconhecia os princípios da educação e da humildade, mas que aceitavam a sua presença para que não dissessem que eram orgulhosos. Na hora de apagar as velas do bolo, o desejo de Kiko é que no seu próximo aniversário a “gentalha” não venha, para que ele possa comer tudo sozinho. Nesse ponto, sua mãe diz que devemos aprender a compartilhar as coisas com a “gentalha”, reconhecendo que isto não é fácil, mas que vale a pena tentar.

O que emerge aqui é que Kiko é o privilegiado social cheio de preconceitos de classe, sádico, manipulador e desumano.  Sempre que é contrariado imediatamente recorre ao poder repressor (sua mãe). Ao longo de todo o enredo, Kiko relaciona-se com os demais desta forma coisificada e utilitária, não hesitando na hora de utilizar o seu poder de classe para impor as suas vontades e humilhar os demais. Para ele, o que vale é o ganho utilitário e o prazer sádico. As “boas maneiras” das quais fala Dona Florinda revelam-se como as boas maneiras dos negócios, a arte de manipular os outros e utilizar instrumentos de poder para benefício próprio. Já Chaves, o menino mais pobre, a inadequação personificada, sempre acusado de “gentalha” por Dona Florinda, o tempo todo tem apenas uma preocupação: matar a sua fome, comendo os sanduíches da festa. De todos os personagens, é o que tem o comportamento menos destrutivo, cometendo apenas “gafes” inocentes que não são toleradas por Dona Florinda, o que contrasta com a sua leniência para com os jogos sádicos de seu filho. Dona Florinda, no entanto, revela a sua má consciência na forma do sacrifício do compartilhamento caridoso – que Oscar Wilde já denunciou como a posição conservadora daqueles que querem colaborar para a manutenção do sistema de dominação. Na cena final do episódio, Chaves compartilha os sanduíches que coletou na festa com o (lúmpen)proletário Seu Madruga, que lhe oferece suco – aqui sim temos o compartilhamento propriamente comunista, sem relações de dominação ou interesse utilitário, o compartilhamento entre iguais.

Desta análise, só se pode concluir que a escolha de associar este personagem a Porto Alegre foi um ato falho, um caso de identificação inconsciente daqueles para quem as “boas maneiras” são aquelas que são funcionais à arte de transformar dinheiro em mais dinheiro – e nada mais –  e já são incapazes de conceituar algo diferente, passando a fazer apologia daquilo que exprime esse espírito. Pois o que se vê em Porto Alegre é justamente que, em nome da Copa e seus lucros, todos os “Chaves” da cidade, todos os inadequados e supérfluos, são humilhados, removidos e aniquilados – isto vai desde a remoção de vilas inteiras até o corte de árvores que são entraves ao “progresso” do alargamento de avenidas. É claro que a “gentalha” não terá acesso à Copa, que lhes será completamente inacessível. A Copa será apenas para os Kikos da cidade, que poderão pagar os altos preços dos ingressos, e mais alguns ingressos caridosos que certamente serão distribuídos para afastar a má consciência dos dominantes. O “complexo de Kiko” transparece até mesmo no vocabulário dos seus atuais administradores, que parecem emular o personagem quando se referem a seus opositores políticos: Fortunatti chama os manifestantes contra o aumento das tarifas de ônibus de “baderneiros”, e os que se opuseram ao tatu da Coca-Cola na praça central da cidade de “vândalos”; Cesar Busatto e Valter Nagelstein chamam os manifestantes de “turba”, e o último chama os participantes da Massa Crítica de “pessoas menos qualificadas”. Mas para além dos preconceitos de classe, os grandes favorecidos com a Copa serão os “donos da vila”, os grandes empreiteiros amigos da administração municipal, em simbiose espúria e destrutiva – a menos que a “gentalha” consiga impedir a realização dos seus sonhos sádicos.

O personagem Kiko, portanto, é um excelente representante não de Porto Alegre, mas da atual administração municipal que o escolheu, que preza pelo corte classista elitista e age e discursa tal qual Kiko em sua festa de aniversário. O que faltou para o episódio do Chaves (e que seria mesmo inadmissível em uma transmissão televisiva) é aquilo que começa a engatinhar em Porto Alegre: a (auto)organização dos muitos Chaves inadequados para combater os poucos Kikos com poder econômico – a luta de classes propriamente articulada pelo direito à cidade.

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Written by sinaldemenos

abril 20, 2013 at 8:38 pm

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