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A câmara de gás de Santa Maria

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Daniel Cunha

Estive recentemente no memorial do campo de concentração de Dachau, nas cercanias de Munique. Lá tive a nauseante sensação de adentrar a câmara de gás que era usada para matar judeus. Foi dessa câmara de gás que lembrei ao acompanhar a tragédia da boate Kiss em Santa Maria. Vejamos a descrição do local veiculada na imprensa: o local era fisicamente configurado para dificultar a saída (com porta única, corredor estreito, divisórias metálicas e seguranças), e o teto do estabelecimento era constituído de material que liberava gás tóxico ao sofrer combustão. É certo que a boate não foi intencionalmente projetada para matar gente como a câmara de gás de Dachau – não havia uma válvula ou interruptor específico para iniciar a combustão da espuma do teto, mas isto torna tudo não menos, mas mais horripilante, quando percebemos que a lógica que configurou o espaço do local da tragédia não é nada menos do que aquela que rege todas as atividades corriqueiramente empreendidas de forma capitalista.

É certo que cada morte representa uma perda individual humanamente insubstituível. Porém, é um tremendo erro considerar este episódio apenas em sua particularidade – há uma lógica estrutural subjacente. Todos os determinantes do episódio possuem uma substância comum, o Capital: a configuração do espaço interno que dificultou a saída das vítimas visava preservar o pagamento monetário das consumações; a superlotação do local aumentou a receita do empreendimento; o material do teto era mais barato do que o material não combustível, que existe; o sinalizador utilizado pela banda era impróprio para uso interno, mas muito mais barato do que o material que produz “fogo frio”; a manutenção frequente dos extintores representa custo. Todos os fatores da tragédia foram determinados pela maximização das margens de lucro, da boate e da banda. Desse conjunto de cegas ações individuais “economicamente racionais” emergiu uma “eficiente” câmara de gás.

Não se tratou, portanto, de uma contingência isolada, pois a sociedade capitalista como um todo é configurada segundo esta “racionalidade econômica”. A lógica da tragédia de Santa Maria é a mesma que determina a morte de operários na construção civil, a morte de ciclistas nas ruas e de motoristas nas estradas, as mutilações de trabalhadores em processos de produção, intoxicações alimentares e leite com soda cáustica, queda de prédios novos, incêndios em favelas localizadas em áreas valorizadas, doenças degenerativas causadas por aditivos alimentares e farmacêuticos, infinidade de doenças ocupacionais, etc., e, não menos importante, a morte lenta representada pela diária mutilação psíquica dos proletarizados que são obrigados a trabalhar em abstrato em atividades sem sentido apenas pelo direito à sobrevivência – isso sem esquecer o aquecimento global e o perecimento de outras forma de vida. Por ter sido concentrada, a tragédia da boate Kiss foi mais chocante do que as tragédias diárias difusas, mas o que aconteceu em Santa Maria foi apenas mais um beijo da morte do Capital, da morte que permeia a totalidade da sociedade capitalista. Se o campo de concentração de Dachau foi o resultado de um excesso irracional do Capital, a câmara de gás de Santa Maria foi o resultado do uso pleno da racionalidade capitalista – racionalidade cuja aplicação teve como resultado uma arquitetura mortífera. Esta racionalidade que tudo objetiva em nome o lucro – e que, ironicamente, muitas vezes recebe o nome de “qualidade total” – permeia a sociedade como um todo. As salvaguardas regulatórias que impunham limites à acumulação desenfreada cada vez mais são escamoteadas pelo triunfo neoliberal. Se é verdade que o Capital desenvolveu as forças produtivas, é também verdade que elas se tornam cada vez mais destrutivas em seu processo de crise.

Para que tais coisas não se repitam, de forma concentrada ou difusa, o que é necessário é uma redução generalizada das margens de lucro, não apenas das boates (materializada em fiscalização eficiente e exigência de investimentos em sistemas de segurança e responsabilização de prefeitos que não o fazem), mas de todos os tipos empreendimentos. Se o Capital não suporta isso sem entrar em colapso, trata-se de mais um evidência de que é preciso superá-lo. A força material para isso está aí: como lembra John Holloway em seu último livro, nas catástrofes ocorrem fissuras no tecido da dominação capitalista, irrupções de relações humanizadas e anticapitalistas. Foi o caso do grupo de jovens que se organizou para quebrar a parede da boate usando marretas para tentar salvar vítimas, como mostram fotos e vídeos veiculados na imprensa. Um deles disse que todos se ajudavam, sobreviventes e pessoas que passavam, desconhecidos que cooperaram “como se fossem uma família” – e foram perfeitamente capazes de se organizar de forma eficiente para fins humanos sem nenhum interesse monetário ou lucrativo, evitando que o número de mortos fosse ainda maior. A tragédia capitalista de Santa Maria fez irromper o seu oposto. É preciso usar marretas contra o Capital.

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Written by sinaldemenos

janeiro 28, 2013 at 10:17 pm

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