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Em defesa de Boris Casoy

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Daniel Cunha

Não, não compartilho os posicionamentos políticos do jornalista Boris Casoy, e não o conheço pessoalmente. No entanto, creio que ele está sendo vítima de uma injustiça de parte de seus críticos, que são majoritariamente de esquerda, no que se refere ao episódio dos garis. Lembremos o ocorrido. Ao final de uma reportagem tipicamente idiota a respeito do novo ano que se aproximava, um gari dizia:

– Feliz ano-novo, muita paz, muita saúde, muito dinheiro, muito trabalho.

E conclui, em coro com um colega:

– Feliz 2010!

Casoy, sem notar que seu áudio continuava aberto, fez as suas célebres observações, com a respiração entrecortada pela risada:

– Que merda, dois lixeiros desejando felicidades… do alto das suas vassouras… dois lixeiros… o mais baixo da escala do trabalho…

Desde então, Casoy é sistemática e regularmente atacado, criticado e achincalhado devido a estas palavras. Teve de retratar-se em seu telejornal no dia seguinte, e, sabe-se agora, foi condenado a pagar 20 mil reais de indenização ao gari. O argumento usado pela esquerda é tão simplório quanto equivocado: Casoy teria ofendido a dignidade dos garis e revelado todo o seu “preconceito de classe”. Porém, por paradoxal que seja, pode-se dizer que neste caso Casoy foi mais esquerdista e mesmo mais marxista do que os seus críticos de esquerda. Pois o que ele evidenciou foi a contradição de se ter um lixeiro, uma pessoa que está em posição indesejável na “escala do trabalho” desejando felicidades, ou seja, enraizou o seu conceito nas relações sociais de produção, e não em alguma forma de desprezo pessoal. Se o trabalho assalariado, alienado, é sempre mutilador e desumanizador, o de gari é um dos que materializam o seu estado mais puro, por levar a insalubridade física e psíquica do trabalho abstrato ao seu limite, ao lidar permanentemente com a escória, objetos podres, estragados, socialmente desprezados, e por isso jogados fora.

É profundamente injusto, portanto, acusar Casoy de “preconceito de classe”. Isto não passa de discurso tão politicamente correto quanto vazio. Casoy expressou um conceito de classe, ou seja, evidenciou a profunda proletarização e alienação dos garis, e a contradição de que estas pessoas nesta condição miserável desejem felicidades aos outros. Indo além de Casoy, não se trata de negar a dignidade dos garis, mas de perceber que a dignidade dos garis começa no ponto em que eles deixam de ser meros garis, que vão contra e mais além dessa identidade imposta pelo capital. Defender a dignidade do trabalho proletarizado é posição profundamente conservadora, e que serve perfeitamente aos interesses das classes dominantes e do sistema capitalista, pois ajuda a garantir a pacificação ideológica (falsa) de uma realidade social violenta.

A resposta propriamente de esquerda ou comunista, portanto, deveria ser:

“Sim, Casoy, nós, garis e demais proletarizados do mundo, estamos em condição social indigna e alienante – é exatamente por isso que estamos preparando uma revolução! Estamos gestando um mundo onde não haverá lixeiros, onde utilizaremos a tecnologia avançada (devidamente expropriada) para automatizar ao máximo as operações envolvendo o lixo. O pouco trabalho manual que ainda for necessário será socializado entre todos, de forma que com uma pequena contribuição pessoal de algumas horas anuais todas as operações necessárias estarão garantidas. Faremos o mesmo em todas as outras esferas da produção social. Nesse mundo, como diria o velho Marx, os indivíduos poderão dedicar-se livremente ao que lhes for prazeroso,  podendo, por exemplo, pescar pela manhã, criticar à tarde e fazer música à noite, sem por isso se reduzirem a pescadores, críticos ou músicos. Você não perde por esperar!”

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Written by sinaldemenos

novembro 25, 2012 às 2:31 pm

Publicado em Uncategorized

2 Respostas

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  1. Cara, você tá falando sério? O “conceito”? Como assim? Também acho que “preconceito de classe” é uma espécie de redundância, já que numa sociedade dividida não há como compreender o outro a não ser por estereótipos e preconceitos. Daí vão lá os de esquerda e moralizam a questão. Como ser de esquerda e moralizar ao mesmo tempo é algo que ainda não consigo entender. Agora, achar que o Boris usou um “conceito”… acho que é um pouco demais. Ele coloca o cara no ar, depois cinicamente ofende o mesmo sujeito que lhe rendeu Ibope, identificação com parte dos telespectadores etc., e aí você pensa que ele, Boris, analisou a coisa evidenciando alienação etc? Desculpe, achei tua defesa bastante risível. Tentei ao máximo não ser ofensivo no meu comentário, desculpe se de alguma forma me escapou alguma ênfase desnecessária. De resto, parabéns pelo teu trabalho como um todo. Ainda não o conhecia. Achei muito bom.

    Jeferson

    novembro 25, 2012 at 5:37 pm

    • Jefferson, não precisa pedir desculpas por discordar, rsrs. Sim, se “preconceito de classe” for nesse sentido – o Casoy vê o proletário a partir de sua lente de classe – ok. Mas não creio que maior parte dos críticos tenha falado nesse sentido. A questão é que a lente de classe dele está mais bem acurada do que a dos críticos! Ser proletário é uma condição negativa, do indivíduo arrancado dos meios de vida, alienado, explorado, sua criatividade transformada em “força de trabalho” (mercadoria). Por isso a resposta deveria ser: “sim, você está certo, nossa condição é deplorável, por isso vamos nos organizar para a nossa autoabolição enquanto proletários, expropriando a sua classe e fazendo uso alternativo da sua riqueza” (essa deveria ser a lente de classe dos proletarizados). Mas – onde você viu o ofensa? Chamar de “lixeiro” é ofensa? Dizer que está na base da pirâmide do trabalho social é ofensa? É isso que digo que é uma moralização. Casoy está certo, eles são proletarizados, intensamente proletarizados.

      Daniel Cunha

      novembro 25, 2012 at 6:57 pm


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